segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O CÍRCULO VICIOSO

O ESTADO DE S.PAULO 10 de fevereiro de 2014 | 2h 04


Denis Lerrer Rosenfield* - O Estado de S.Paulo




Os fatos são aterradores. Três moradores de Humaitá (AM) foram sequestrados e, posteriormente, assassinados por um grupo de indígenas da etnia tenharim. Foram mortos com armas de fogo, segundo a Polícia Federal, que conduz as investigações, com o auxílio, decisivo, do Exército Brasileiro.

Paira sobre esse fato, porém, um silêncio, mais que constrangedor, da Funai e dos ditos movimentos sociais, embora noticiado pelos principais meios de comunicação. Quando há uma manifestação, como a da presidente da Funai, é de que esse órgão não está bem a par do que aconteceu. Como assim? Desconhecimento, omissão ou má-fé?

Houve, anteriormente, a morte de um cacique num acidente de moto, algo, infelizmente, banal no País. Contudo um responsável da Funai na região se apressou a dizer que essa morte se devia a questões obscuras, não elucidadas. Tal declaração foi o estopim para que um grupo de indígenas sequestrasse três habitantes da região - um técnico da Eletrobrás, um representante comercial e um professor - que simplesmente trafegavam por uma rodovia.

Lá, sem nada saber, o responsável da Funai dizia saber o que havia acontecido, apesar de todas as evidências em contrário. Agora que as evidências são expostas à luz do Sol, ninguém sabe nada. Diga-se de passagem que esse funcionário, dada a sua irresponsabilidade, foi exonerado de suas funções. O estrago, no entanto, já estava feito. E a irresponsabilidade perdura!

A dita represália indígena por um ato criminoso inexistente terminou suscitando a revolta dos moradores da região, que, clamando por justiça e exigindo a busca dos desaparecidos, acabaram ameaçando os indígenas, queimando os postos de pedágio e atacando algumas aldeias, sem que ninguém tenha saído ferido ou morto. Tampouco isso deve ser tolerado. Aliás, os "pedágios" queimados nem deveriam existir, porque são ilegais. Há muito as autoridades indigenistas deveriam ter tomado medidas para removê-los. Nada fizeram e acirraram os conflitos.

A Secretaria de Direitos Humanos, sempre tão pronta a reagir quando acontece qualquer coisa a um grupo que considera privilegiado do ponto de vista de sua atuação, guarda um silêncio obsequioso. A atitude não deixa de ser paradoxal. Em sua peculiaríssima concepção do humano, exclui todos os que são assassinados por uma questão das mais torpes, tendo como autores seus "humanos" escolhidos. Será que os assassinados não são humanos?

Se um indígena morre num acidente de moto, temos uma comoção nacional e mesmo internacional. Se três não indígenas são assassinados, é como se fosse irrelevante. Há assassinos brancos e indígenas e todos devem ser tratados com o mesmo rigor da lei. Já dizia Darcy Ribeiro que os indígenas não são melhores nem piores que os não indígenas. São simplesmente iguais, humanos nesse sentido. Não pode haver dois pesos e duas medidas.

A Comissão Pastoral da Terra, órgão esquerdizante vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), vem, aliás, de publicar um relatório sobre as mortes de indígenas no Brasil listando entre os mortos o cacique Ivan Tenharim, que, sim, morreu, mas, como mencionado, num acidente de moto, o que foi reconhecido por seu próprio filho. Ou seja, o filho do cacique reconhece que o pai morreu num acidente!

O abuso ideológico parece, todavia, não ter limite algum. Trata-se simplesmente de sua exploração política. "Estatísticas" desse tipo, de pouquíssima credibilidade, como se pode ver, têm o objetivo de sempre culpar os empreendedores rurais, o "latifúndio", a "monocultura", e assim por diante. Eis outra forma de "estatística criativa"!

Há todo um panorama de fundo que revela, para além dos assassinatos, o fracasso da política indigenista em vigor. Uma coisa é a imagem vendida, voltada para capturar a simpatia dos incautos que vivem nas grandes cidades, outra é a realidade, que resiste ferozmente a esse tipo de exploração da opinião púbica.

Segundo a Funai, o Conselho Indigenista Missionário e as ONGs indigenistas, os indígenas viveriam reclusos, à margem da civilização, sobrevivendo de caça e pesca. Esse é o discurso vendido à mídia em geral e amplamente comprado. Note-se que os indígenas da região possuem terras suficientes. O problema não é fundiário, ao contrário do que é corriqueiramente alardeado.

Ora, cada casa na aldeia tem uma moto em frente e elas são dotadas de TV e internet. Os indígenas vivem a maior parte do tempo, mesmo trabalhando, em cidades, como Humaitá. São, pois, aculturados - embora a Funai deteste esse nome, que contraria tudo o que faz. Querem, isso sim, as comodidades da civilização e não sua subtração. Querem o bem-estar que almeja todo brasileiro. Deveriam ser contemplados em suas demandas, com políticas sociais (educação, saúde, emprego, moradia e luta contra o preconceito) que atendessem às suas exigências. Trata-se do seu direito!

Mais importante ainda foi a declaração de um cacique de que o modelo indigenista da Funai está ultrapassado. Um cacique do Norte do Brasil tem a mesma posição dos "ruralistas", ambos coincidindo na ideia de que o País deve sofrer uma profunda revisão de sua política indigenista.

Mas a Funai procura aproveitar-se da situação, dizendo que o problema geral do País é meramente fundiário. Ou seja, esse órgão estatal vive da ficção ideológica de fazer do Brasil uma espécie de museu indigenista, na verdade, uma forma de zoológico. Não são os interesses dos indígenas que são atendidos, mas as posições ideológicas verbalizadas em escala nacional e global pelos ditos movimentos sociais e pelas ONGs indigenistas.

O círculo é totalmente vicioso. Os indígenas responsabilizam a Funai, que, por sua vez, culpa os produtores rurais, que reagem às provocações, que repercutem na mídia como se fossem eles os responsáveis pelos conflitos indígenas. O status quo só favorece os semeadores de conflitos e de violência.

*Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MORTOS EM ÁREA INDÍGENA NO AMAZONAS

FOLHA.COM 04/02/2014 19h37

Familiares reconhecem corpos de mortos em área indígena no AM

JAIRO BARBOSA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PORTO VELHO (RO)




Familiares dos homens desaparecidos desde meados de dezembro passado em Humaitá (AM) reconheceram nesta terça-feira (4) os três corpos,localizados na segunda-feira pela Polícia Federal no trecho da Transamazônica que corta a reserva indígena dos Tenharim.

Os corpos do funcionário da Eletrobras Aldeney Salvador, do representante comercial Luciano Ferreira e do professor Stef de Souza estão no IML (Instituto Médico Legal) de Porto Velho, que em dez dias entregará um laudo no qual indicará as causas das mortes.

Dois peritos do Ministério da Justiça foram enviados a Rondônia para acompanhar o trabalho dos legistas locais e recolher material genético para futuro exame de DNA em Brasília.

"É ele sim, é ele. Os pés, as mãos, um sinal no rosto, tudo, é ele sim", disse a aposentada Luzimar dos Santos Ferreira, após reconhecer o corpo do filho, Luciano Ferreira.

Os corpos serão liberados aos familiares para providenciar velório e enterro. Ferreira deve ser enterrado em Humaitá, enquanto Souza seguirá para Apuí (AM). Já familiares de Aldeney Salvador decidiram levar o corpo para Manaus, capital do Amazonas.

O trio viajava junto de carro pela rodovia Transamazônica quando desapareceu, em 16 de dezembro, o que desencadeou violentos protestos em Humaitá.

Moradores da cidade, que responsabilizam os indígenas pelo sumiço dos homens, atearam fogo à sede local da Funai (Fundação Nacional do Índio) e destruíram veículos e barcos que transportavam índios.

A população não indígena chegou a ligar os desaparecimentos a uma possível retaliação dos índios à morte do cacique Ivan Tenharim, 55.

A partir disso, a Polícia Federal iniciou uma investigação que terminou com a prisão, na semana passada, de cinco índios da etnia tenharim por suposto envolvimento no assassinato dos três homens. Eles seguem presos em Porto Velho, a 200 km de Humaitá.

Entre os cinco presos estão o cacique Domiceno Tenharim, da aldeia Taboca, onde as buscas pelos corpos se concentraram, e dois filhos do cacique Ivan Tenharim, morto no início de dezembro após cair de uma moto –um inquérito sobre o caso ainda não foi concluído.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

VIOLÊNCIA CONTRA ÍNDIO ESTÁ BANALIZADA, DIZ PRESIDENTE DA FUNAI

FOLHA.COM 02/02/2014 02h00


PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO




No comando de uma área repleta de conflitos, a presidente interina da Funai (Fundação Nacional do Índio), Maria Augusta Assirati, 36, diz que a violência contra indígenas está se "banalizando".

Em entrevista à Folha, ela admite que, sozinho, o órgão não consegue lidar com o barril de pólvora das disputas entre índios e produtores rurais. Há sete meses no cargo, ela só teve uma reunião com a presidente Dilma Rousseff.

Anteontem, um dia após a entrevista, cinco índios foram presos no AM sob suspeita de matar três homens. Em nota, a Funai disse desconhecer os motivos das prisões e afirmou monitorar a situação.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Sérgio Lima-31.jan.2014/Folhapress

A presidente interina da Funai, Maria Augusta Assirati, em seu gabinete em Brasília

*

Folha - Os conflitos indígenas no Brasil têm se agravado. Por que se chegou a esse ponto?
Maria Augusta Assirati - De uns anos para cá, as demarcações de terras indígenas estão concentradas na porção sul e centro-sul do país. São regiões difíceis de se trabalhar, porque muitos agricultores têm títulos das terras.

O governo Dilma foi o que menos homologou terras indígenas desde FHC. Por quê?
Sobretudo por essa intensificação dos conflitos. Para evitar conflitos com desfecho negativo, o governo estabeleceu mesas de diálogo.

Há na Funai sete estudos sobre terras indígenas que esperam a sua assinatura para ter continuidade na demarcação. Por que não assina?
Um pouco em função dessa orientação; onde o governo compreendeu que pudesse gerar conflito, se pensou em fazer um diálogo prévio.

Isso não agrava os conflitos?
O governo federal é composto por diversos órgãos. A nossa posição nesses diálogos é no sentido da defesa dos direitos indígenas. Mas o governo federal é mais amplo.

Segundo o Cimi [Conselho Indigenista Missionário], a média anual de índios assassinados passou de 20,9 nos mandatos de FHC para 56 nas gestões de Lula e de Dilma. Há descaso do governo?
Os indígenas ainda estão no centro de ação de grande preconceito, de racismo, e são vítimas, ainda, de uma violência grande no país.

O que o governo tem feito para resolver esses conflitos?
Essa iniciativa da mesa [de negociação] foi interessante porque é justamente voltada para a redução dos conflitos, mas é um caminho longo. Acredito que se chegou a um ponto de uma banalização desse tipo de violência.

A estrutura da Funai é insuficiente?
A Funai tem atuação em todo o Brasil e atende segmentos da população que estão em lugares com logística difícil de acesso. Precisamos ter presença mais frequente do ponto de vista da proteção territorial; garantir que áreas já regularizadas não sejam ocupadas para exploração ilícita de recursos naturais.

O que acha da proposta de dar ao Legislativo a atribuição de demarcar terras indígenas?
Na perspectiva da Funai, é bastante negativa, porque atrasaria em muito os processos e traria uma série de componentes políticos, de disputas entre segmentos que integram o Congresso.

E da proposta do Ministério da Justiça de incluir outros órgãos nas demarcações?
O decreto que rege a regularização fundiária das terras indígenas já tem um dispositivo que prevê a possibilidade de consulta a outros órgãos. A portaria propõe a regulamentação da forma de participação desses órgãos. Se eles tiverem efetivamente a capacidade de contribuir, a ação é bem-vinda.

Os conflitos na construção de Belo Monte vão se repetir na região do rio Tapajós (PA), onde o governo quer licitar novas hidrelétricas?
Esperamos que não. Por termos aprendido com a experiência de Belo Monte, esperamos fazer melhor.

Existe pressão do governo para ser permissiva em áreas onde há interesse em realizar obras de infraestrutura?
É evidente que existe uma necessidade de priorizar ações. Todos os órgãos intervenientes, como o Ibama, são sempre instados a ter manifestações céleres em ações prioritárias para o governo.

*

RAIO-X: MARIA AUGUSTA ASSIRATI, 36

CARGO Presidente interina da Funai (desde junho de 2013)
FORMAÇÃO Bacharel em direito (Unip) e mestre em desenvolvimento e políticas públicas (Ipea e Fiocruz)
ATUAÇÃO Foi diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai (junho de 2012 a junho de 2013) e diretora do Departamento de Diálogos Sociais da Secretaria-Geral da Presidência (março a junho de 2012), entre outros, com atuação nas áreas de direito público e gestão pública



sábado, 1 de fevereiro de 2014

ÍNDIOS TENHARIM MATARAM E ESCONDERAM CORPOS

FOLHA.COM 31/01/2014 15h22

Índios presos no AM mataram três pessoas e esconderam corpos, diz PF


JULIANA COISSI
DE SÃO PAULO
JAIRO BARBOSA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PORTO VELHO



A Polícia Federal apontou índios da etnia tenharim da região de Humaitá (AM) como os responsáveis pelo assassinato, dentro de uma aldeia da etnia, de três homens que estão desaparecidos desde o mês passado. A PF afirmou ainda que os suspeitos ocultaram os cadáveres.

A PF divulgou nota nesta sexta-feira (31) sobre a investigação. Uma ação na noite de quinta-feira (30) prendeu cinco índios suspeitos dos crimes. Todos vivem em aldeia localizada entre os kms 100 e 150 da BR-230, no sul do Amazonas.

A pedido da PF, a Justiça Federal expediu cinco mandados de prisão temporária contra os suspeitos.

Conflitos em Humaitá 

Avener Prado/Folhapress
Com o auxílio de cães farejadores, a PF, a Força Nacional e o Exército fazem buscas para localizar três pessoas desaparecidas na região da aldeia Taboca, próxima a cidade Humaitá, no Amazonas Leia mais

"As conclusões da investigação apontam para a ocorrência de homicídio praticado pelos presos dentro de uma das aldeias e posterior ocultação dos cadáveres. Os corpos ainda não foram localizados", informou a PF.

O funcionário da Eletrobras Aldeney Salvador, o representante comercial Luciano Ferreira e o professor Stef de Souza viajavam juntos pela rodovia Transamazônica no dia 16 de dezembro quando desapareceram.

No início deste mês, policiais localizaram peças de carro queimadas dentro da terra indígena tenharim. A PF ainda não divulgou o resultado da perícia sobre o material.

O desaparecimento dos três homens desencadeou violentos protestos em Humaitá no fim de dezembro. Moradores atearam fogo à sede local da Funai e destruíram veículos e barcos que transportavam índios.

Policiais federais já percorreram cerca de 270 hectares da área tenharim, com a ajuda de cães farejadores, na tentativa de localizar os possíveis cadáveres. Também foram empregados equipamentos de rastreamento das peças metálicas escondidas.

RETALIAÇÃO

Na época das revoltas contra os indígenas da região, a população não indígena chegou a acreditar que os desaparecimentos teriam sido provocados por índios tenharim em retaliação à morte do cacique Ivan Tenharim, 55.

A versão da polícia, segundo a qual o índio morreu em um acidente de carro, foi questionada em post um no blog da Funai. Moradores acreditam que o texto teria incitado os índios. Depois do episódio, a Funai exonerou o coordenador regional que publicou o post, apontando-o como incentivador da tensão.

A família do cacique não partilhava da suspeita de que a morte foi mais do que um acidente. "Em nenhum momento a gente falou que o meu pai foi assassinado. A gente não protestou nem chegou a acusar ninguém", disse Gilvan, 24, filho de Ivan. Ele explicou que a família não autorizou a autópsia completa por questões culturais.

FAMILIARES ESPERAM INFORMAÇÕES

Após a divulgação da prisão dos índios, parentes de um dos homens desaparecidos foram buscar informações na PF em Porto Velho, para onde os índios suspeitos foram levados.

Jairo Barbosa/Folhapress

Familiares de homem que, segundo a PF, foi morto por índios tenharim


Chorando, o pai e o irmão de Stef de Souza (43) diziam ainda não acreditar na morte do professor, um dos três desparecidos em Humaitá. A PF não encontrou os corpos, mas dá as mortes como certas.

"Quem garante que a Justiça irá manter esses índios presos? Prisão nenhuma vai amenizar a dor que estamos sentindo. A esperança era que fossem encontrados vivos, mas isso acabou", disse Stefanon Pinheiro de Souza, irmão do professor.
Editoria de arte/Folhapress



sábado, 11 de janeiro de 2014

O ARCO, A FLECHA E O AVIÃO



FOLHA.COM 11/01/2014 - 03h40


DE SÃO PAULO



Dois índios nus, pintados de urucum, arcos retesados, apontam suas flechas para o avião que os fotografava. A força magnética daquela imagem, divulgada em 2008, deriva de suas ressonâncias culturais, que tocam nos nervos do binômio natureza/civilização, o núcleo pulsante da narrativa romântica ocidental. Eis a Amazônia, sussurra uma voz dentro de nós. A voz está errada. Aqueles índios isolados existem, mas a Amazônia é outra coisa: o fruto do encontro entre ondas migratórias recentes e indígenas deslocados por quatro séculos de colonização. O conflito étnico em Humaitá, ponta emersa de tensões explosivas e difusas, decorre da decisão política de rejeitar a história em nome do mito.

Esqueça a lenda do paraíso isolado: a economia-mundo englobou a Amazônia no sistema de intercâmbios globais desde que Manaus tornou-se um porto de navios oceânicos, no anoitecer do século 19. Esqueça a lenda dos "povos da floresta": a Amazônia foi ocupada por pioneiros do Nordeste e do Centro-Sul em dois ciclos sucessivos, entre 1880 e 1920 e de 1942 em diante. Esqueça a lenda das tradições imemoriais: as festas folclóricas da região, surgidas décadas atrás, refletem as extensas mestiçagens entre os colonos e deles com os povos autóctones. A pureza está na foto, o vislumbre de uma relíquia, um instantâneo vestigial. Os Tenharim, conta-nos o repórter Fabiano Maisonnave, são evangélicos, moram em casas de madeira com eletricidade, deslocam-se em motos, torcem pelo Flamengo e pelo Corinthians. Por que traçar uma fronteira étnica intransponível separando-os dos demais habitantes de Humaitá?

Quem é índio? De acordo com o Retrato Molecular do Brasil, de Sérgio D. Pena, 54% dos "brancos" da Região Norte apresentam linhagens maternas ameríndias. O Censo 2010 registrou taxas espantosas de crescimento anual da população indígena do Acre (7,1%), de Roraima (5,8%) e do Amazonas (4,1%), interpretadas pelo IBGE como "etnogênese" ou "reetinização": o resultado de mudanças em massa na opção de autodeclaração étnica estimuladas pelas políticas raciais. Na Amazônia, redefinir-se como indígena tornou-se uma estratégia destinada a obter segurança fundiária, cotas preferenciais e privilégios extraordinários (como o de cobrar pedágios em rodovias federais). Os caboclos amazônicos, que são meio-índios, reagem declarando-se inimigos dos índios. Aí estão as raízes políticas da "guerra de Humaitá".

Quem é índio? Telma Tenharim, mulher do cacique cuja morte acendeu a faísca das violências em Humaitá, "uma mulher miúda com poucos traços indígenas", é filha do primeiro branco que teria entrado em contato com o grupo, nos anos 1940. Segundo a clássica definição de Darcy Ribeiro, índio é o indivíduo "reconhecido como membro por uma comunidade pré-colombiana que se identifica etnicamente diversa da nacional" e, ainda, "considerado indígena pela população brasileira com quem está em contato". A política indígena oficial, capturada por ONGs racialistas e entidades missionárias, é uma pedagogia de "reetinização" que se nutre das carências sociais e fabrica o conflito étnico.

"Em nenhum momento a gente falou que meu pai foi assassinado. A gente viu que ele caiu da moto." As palavras de Gilvan, filho do cacique morto, confirmam as conclusões da perícia policial, mas contrastam com o texto do coordenador regional da Funai, Ivã Bocchini, postado no blog do órgão, que sugeria a hipótese de assassinato. O cacique "era como um chefe de Estado", escreveu Bocchini, exigindo que "seja apontada a verdadeira causa da morte" e celebrando "a luta do povo Tenharim".

Um "chefe de Estado" com o arco retesado e a flecha apontada para o avião dos intrusos "brancos": nessa imagem falsa, construída pelas políticas estatais de raça, encontram-se as sementes do ódio entre caboclos-índios e índios-caboclos.
demétrio magnoli
Demétrio Magnoli, doutor em geografia humana, é especialista em política internacional. Escreveu, entre outros livros, "Gota de Sangue - História do Pensamento Racial" (ed. Contexto) e "O Leviatã Desafiado" (ed. Record). Escreve aos sábados.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

LÍDER INDÍGENA É MORTO A FACADAS



Líder Guarani-Kaiowá é morto a facadas no Mato Grosso do Sul. Segundo Conselho Indigenista Missionário, ele foi assassinado a caminho de casa

MARCELLE RIBEIRO
O GLOBO
Atualizado:4/12/13 - 14h23

Ambrósio Vilhalva em 2008, no Festival de Veneza, onde o filme 'Terra vermelha' foi exibido. O documentário mostrava a luta dos índios Guarani-Kaiowá para retomar a terra de seus ancestrais DAMIEN MEYER / AFP


SÃO PAULO - O líder indígena Ambrósio Vilhalva, da etnia Guarani-Kaiowá no acampamento Guyraroká, na cidade de Caarapó, em Mato Grosso do Sul, foi morto a facadas na noite do último domingo, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão da Igreja Católica vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). De acordo com o CIMI, ele foi assassinado a caminho de casa, na própria aldeia em que vivia.

Em 2008, o líder foi um dos protagonistas do filme “Terra Vermelha”, co-produção italiana e brasileira, que conta a história de uma tentativa da tribo Guarani-Kaiowá de retomar a terra de seus ancestrais, vizinha a fazendas.O CIMI afirma que, de acordo com informações preliminares, Vilhalva pode ter sido morto por outro índio.

De acordo com o CIMI, nos seus últimos dias de vida, Vilhalva vinha bebendo muito e tinha comportamento hostil com os indígenas da aldeia. Segundo o conselho, o uso compulsivo de bebidas e o suicídio têm se tornado comum entre comunidades indígenas no país.

‘Estamos bravos. Assim eles vão nos matar’, diz liderança Awá. Após vencer a desconfiança dos índios, ouve-se o desabafo: ‘Quero ficar na minha casa’

MÍRIAM LEITÃO, COM FOTOS DE SEBASTIÃO SALGADO
O GLOBO
Atualizado:4/08/13 - 10h12


O jovem guerreiro Jui´i ao lado de sua esposa. ‘Eles têm força, mas nós tem coragem também’ © Sebastião Salgado/Amazonas Images / O Globo


ALDEIA JURITI, TERRA AWÁ, MARANHÃO - Os índios chegaram, alguns vestidos só com seus adornos e carregando arco e flecha, e ficaram em pé em frente à casa. Muitos estavam gripados. Nós nos aproximamos e Sebastião Salgado tentou explicar, com a ajuda de Patriolino, coordenador do posto da Funai no Juriti, e José Pedro, outro sertanista, que falam um pouco de Guajá, por que estávamos lá. Falei também. Disse que escreveria para outros saberem o que acontecia. Era o começo do segundo dia, e a nossa chance de quebrar o gelo. Eles ficaram em silêncio quando paramos de falar. Depois, Piraíma’á começou a falar, e sua voz foi se elevando, eloquente. Depois, seu filho, Jui’í falou. O resto da tribo repetia algumas frases. Tudo foi traduzido depois por Uirá Garcia. O antropólogo não havia chegado, mas lhe enviei arquivo sonoro.

Trechos dos discursos são suficientes para se entender o que sentem:

— Estamos bravos com os brancos (não indígenas). Eles estão na floresta e isso me deixa realmente zangado. Por que eles estão tirando as árvores? Eles mexem na mata, aqui, ali, em todo lugar. Os madeireiros fazem isso. Assim eles vão nos matar, vão matar meus filhos. Assim os madeireiros vão matar todos os nossos parentes. A casa dos brancos já está toda desmatada. A minha casa é a floresta. Quero ficar na minha casa. Na floresta. É dela que eu vivo, e lá eu vou andar, vou caçar e pescar. Eles, os madeireiros, estão matando as árvores, estão matando os Awá.

A voz de Piraíma’á subia de tom, quase aos gritos, às vezes. De vez em quando, ouvia-se uma única palavra em português: “madeireiro”. Era possível se emocionar, mesmo sem saber a língua. Os outros índios, às vezes, se levantavam, inquietos. Depois ouviam em silêncio. Piraíma’á continuou:

— A minha área está cheia de fazendas de gado. Os madeireiros estão matando as árvores. Uma árvore dura, muito dura e grande, e eles conseguem derrubar. Eu vou enfrentar esses brancos madeireiros. Eu tenho coragem. Estou aqui e vou brigar com eles. A minha casa é aqui, a casa dos brancos é bem longe. É na cidade. A minha casa é aqui na floresta. Eu tenho coragem. Vou resistir. Eu não tenho medo, não.

Ele ficou em silêncio, os demais índios, quietos. Juí’í saiu, tirou as roupas que usava, voltou apenas com adornos da tribo e se sentou ao lado do pai e da mãe. Eles não têm um chefe, mas Piraima’á é a liderança mais forte. Seu filho é o líder dos jovens. E Juí’í começou a falar:

—Eu sou Awá-guajá. Não sou outro tipo de índio, não. Há outros parecidos com os brancos, ficam perto dos brancos. Eu sou da floresta mesmo. Eu fico na floresta. A floresta me dá minha comida. Pergunto para o meu irmão: irmão, por que os brancos não param de matar as árvores? Eles têm lanterna, munição, espingardas. Eu não tenho nada. Eu sou Awá-guajá de verdade. Agora na seca, a floresta está cheia de madeireiros. Eles ficam na floresta. Eles matam as árvores e vendem elas. Eu não tenho medo, vou ficar.

Ao fim, Sebastião falou suavemente. Agradeceu e contou que ficaríamos com eles, que iríamos para a floresta com eles. Pediu que nos mostrassem a mata, as belezas, os perigos. Principalmente, que mostrassem quem eram eles.

— Queremos saber o que é ser Awá. Povo bonito sô, povo bravo. Queremos ver isso. Por favor nos mostrem — disse ele. E foi traduzido.

Eles nos olharam intensamente e saíram. Ficamos sem saber se aquilo era uma concordância. Os dias mostraram que sim. Saímos primeiro com as crianças. Elas exibiram suas brincadeiras no Rio Caru. Durante duas horas, brincaram e Sebastião fotografou com paciência, cantando, baixinho, velhas músicas brasileiras. “Meu primeiro amor, foi como uma flor que desabrochou...” Ele canta para se concentrar.

O barulho da mata, a algazarra das crianças, uma índia que pescava do outro lado com seus filhos, a chegada de Amerytxiá, saindo do meio da floresta com seu cajado, foram acentuando a magia do momento e confirmando o cenário de um paraíso, que sabíamos estar sitiado.

No outro dia, fomos numa caminhada com os homens na mata. Eles reduziram o ritmo em que andam, mas para nós era um passo exigente. Os sons das araras e outros pássaros, eles usando só seus adornos, aquela caminhada batida, as árvores altas da floresta, tudo nos levava para o mundo deles. Houve um dia em que os jovens e crianças apareceram na casa da Funai. A maioria só olhou e sorriu, falando uma ou outra palavra. Pedi a Jui’í uma conversa longa e gravada, em português. Ele concordou e voltou a falar que os madeireiros estavam em todos os lugares. Primeiro, chegam os motoqueiros e marcam as árvores; depois, vêm os que cortam.

—Eu vi madeireiro. Eu estava escondido. Madeireiro tem arma pesada mesmo. É perigoso mesmo. Eles têm força, mas nós tem coragem também. Tem zoada de trator aí dentro, na cabeceira da Água Preta tem muita madeira marcada. Eu estou escutando zoada de trator.

Perguntei o que queria para o filho dele, que está para nascer. Ele disse que apenas a terra e a floresta. Ele é um dos poucos que já saiu de lá. Fez uma viagem para outra aldeia Awá para procurar alguma moça para casar. Achou Xikapiõ, nome de passarinho, e a trouxe com a mãe viúva e um irmão. Viajou uma vez com a Funai para Brasília. E tudo o que se lembrou, quando perguntei se tinha achado a cidade bonita, é que viu muita madeira na estrada. Jui’í me contou da sua vida e crenças. Disse que seu segundo pai é Uirahó. Entre eles formam-se duplas de amigos de infância que compartilham tudo, e um vira o segundo pai dos filhos do outro.

Tropas do Exército desembarcam na reserva

Não conseguiu me dizer em que idade eles viram guerreiros (Quando fica bravo, é guerreiro”). Cantou a música que o jovem guerreiro canta antes da primeira caça. O canto é para “subir ao céu” e pedir ajuda para achar a caça. Ele contou de um jeito engraçado a conversa com o ser celestial, que chamou de Tupã. Achou que eu não entenderia a ideia dos Karauaras.

— Nós fala: rapaz bota aí uma anta, bota animal para nós. A criança está chorando. E ele responde: ah, pois está, vou liberar um para vocês.

Ele contou que a caça está assustada por causa do barulho dos tratores, dos cortes de madeira, e está mais difícil caçar. Contou também que, de vez em quando, ouvem reprimenda no céu.

— Eles dizem: rapaz, tu é ruim demais. Deixa madeireiro entrar na tua área e roubar madeira. Aí, nasce filhotinho e morre tudo de fome.

Sebastião ficou mais duas semanas. Foi para dentro da mata e passou dias e noites com eles, vivendo com eles, da maneira tradicional. Voltou convencido dos riscos que correm:

— Eles são o povo mais ameaçado. Andei com eles, vi o sofrimento deles vendo as árvores marcadas, ou derrubadas.

Na semana seguinte, o Exército chegou lá com tropas, armas, blindados, parte de uma operação com o Ibama: a Hileia Pátria, para combater desmatamento e implantação de maconha.

— A chegada do Exército mudou todos os dados da região. Chegaram com um aparato considerável. Eles têm 700 homens, uma enorme quantidade de caminhões, blindados e estão muito armados. Além do problema da madeira, estão combatendo as plantações de maconha em terra indígena e, em parte, nas terras dos Awá. Na floresta, quando você tira as toras, criam-se as condições ideais para plantar maconha — contou Sebastião, antes de voltar a Paris.

Foram dias intensos, em que vimos uma cultura indígena milagrosamente conservada, nos restos de uma floresta sitiada pelo crime, em que conversei com agentes da cadeia do desmatamento e com posseiros, em que o Exército desembarcou na área conflagrada. Vários funcionários da Funai que ficam lá já foram ameaçados de morte. Segundo Maria Augusta Assirati, a presidente interina da Funai, nos próximos meses será feita a “desintrusão”. O chefe dessa operação de desocupação, Hélio Sotero, acha que a tensão aumentará:

—O momento mais tenso foi o da construção da Base de Proteção e Controle de Acesso ( o galpão onde dormimos antes de chegar à aldeia). Mas em agosto os trabalhos de retirada começarão. A partir daí, só Deus sabe.

INDIOS CERCAM PLANALTO E ENTRAM EM CONFRONTO COM SEGURANÇAS

CORREIO DO POVO 04/12/2013 12:45

AGENCIA BRASIL

Grupo protesta contra "inviabilização da demarcação de terras indígenas"



Índios cercam Planalto e entram em confronto com seguranças
Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil/CP


Depois de cercarem o Palácio do Planalto, em Brasília, nesta quarta, cerca de 1,2 mil índios de várias etnias estão neste momento divididos em manifestações no Congresso Nacional e diante do Ministério da Justiça. O grupo protesta contra o que classifica como mais uma iniciativa do governo federal para inviabilizar a demarcação de terras indígenas. A presidente Dilma Rousseff não estava no local.

Durante o protesto, os índios chegaram a entrar em conflito com seguranças do Palácio do Planalto e a fechar o trânsito em vários trechos da Esplanada dos Ministérios. O estopim da manifestação foi a minuta (esboço) de uma portaria que, segundo as lideranças indígenas, o Ministério da Justiça está produzindo. Representantes do movimento dizem ter tido acesso à cópia do documento no último final de semana. Segundo Sônia Guajajara, uma das coordenadoras da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o texto estabelece mudanças nos procedimentos legais necessários ao reconhecimento e à demarcação de terras indígenas.

A proposta, ainda segundo Sônia, visa a oficializar a proposta do governo federal de que outros órgãos de governo além da Fundação Nacional do Índio (Funai) sejam consultados sobre os processos demarcatórios em curso. A proposta foi apresentada pela ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, ainda no primeiro semestre deste ano, com a justificativa de minimizar conflitos entre índios e produtores rurais.

“A gente entende que a minuta servirá só para dificultar ainda mais o processo de identificação e demarcação de terras. O governo federal e o Congresso Nacional estão aliados para atacar e diminuir os direitos indígenas, principalmente os territoriais, favorecendo o agronegócio e o latifúndio”, disse Sônia Guajajara, adiantando que o grupo quer ouvir o ministro José Eduardo Cardozo sobre o assunto.

“Há um momento em que as autoridades, e o ministro da Justiça, principalmente, têm que se posicionar e atuar para que os direitos sejam cumpridos, para implementar o que já é garantido constitucionalmente, e não adiar ainda mais isso. O efeito da demora na demarcação de novas terras indígenas é tensionar ainda mais a situação. O governo e o ministro pensam que estão mediando, apaziguando as tensões, mas os conflitos só vêm aumentando”, acrescentou Sônia.

Portas foram fechadas no Planalto

Ao perceber a chegada dos índios, seguranças fecharam todas as portas de acesso ao Palácio do Planalto. Os índios rodearam o edifício e tentaram passar pela entrada lateral. Fazendo barulho e carregando faixas com pedidos de “demarcação de terra urgente”, alguns manifestantes forçaram a passagem, entrando em confronto com a segurança. Alguns seguranças chegaram a usar spray de pimenta para dispersar o grupo.

Após cerca de meia hora no local, parte do grupo seguiu para o Congresso Nacional. Outra parte se reuniu diante do Ministério da Justiça, impedindo o acesso dos servidores que chegavam. Policiais militares reforçam a segurança do local. Representantes do ministério estão negociando com os líderes do protesto. Segundo a assessoria do ministro José Eduardo Cardozo, ele pretende receber uma delegação indígena para discutir o tema.

Além de criticar a minuta, os índios também cobram a apuração de crimes contra os povos indígenas, como o assassinato do cacique Ambrósio Vilhalba, da Aldeia Guarani-Kaiowá Guyraroká, em Cristalina (MS). Vilhalba foi encontrado morto segunda. A Polícia Civil deteve dois suspeitos e investiga se a morte foi consequência de rixas entre o cacique e outras lideranças da aldeia.

“O governo deve deixar de promessas e cumprir o que prometeu para nós. Hoje você vê o povo indígena lá em Mato Grosso do Sul sendo assassinado por fazendeiros, por grandes pecuaristas, que querem tomar a terra do índio. Queremos demarcação de terras urgente. Não dá mais para aguentar. Também queremos direito à saúde e à educação. E respeito ao povo indígena”, disse o índio kinikinau, de Mato Grosso do Sul, Nicolau Flores.