quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ASPECTOS CULTURAIS GARANTEM ABSOLVIÇÃO DE INDÍGENAS ACUSADOS DE TORTURA

DIÁRIO DA MANHÃ, 28/08/2014

 Redação Passo Fundo


Foto: Arquivo DM



Costumes, dogmas e construções culturais restritas a determinados grupos sociais, costumeiramente, não são analisadas sob a ótica jurídica ou não têm expressão suficientes para embasar decisões em tribunais brasileiros. O juiz da 2ª Vara Criminal do Fórum da Comarca de Passo Fundo, Orlando Faccini Neto, porém, fez uma leitura diferente de um caso de tortura denunciado pelo Ministério Público em 2010. Em sua sentença, o magistrado, que também esta a frente da direção do Fórum local, inocentou três índios caingangues das acusações de tortura contra uma mulher da mesma tribo, expulsa do acampamento indígena situado no município de Mato Castelhano, distante cerca de 20 quilômetros de Passo Fundo.

Na apuração dos fatos levados ao Judiciário, o Ministério Público (MP) denunciou que os três homens acorrentaram a mulher a um tronco de árvore durante cerca de quatro horas e a ameaçaram, fisica e mentalmente. De acordo com as acusações do MP, o cacique da tribo, fixada às margens da BR 285, aplicou o castigo pessoal, de caráter preventivo e cunho considerado intimidatório, com o auxílio dos outros dois índios, por ter considerado ofensiva a posição da mulher, que defendeu o direito de sua filha e genro mudar de acampamento indígena. “[...] o cacique, após discussão com a ofendida, indígena sob seu poder e autoridade, puxou-a para fora de casa, arrastando-a por cerca de 100 metros até um campo, localizado em frente à sua residência, onde acorrentou a vítima em um tronco. A mulher, que estava grávida no momento do fato, ficou por cerca de quatro horas acorrentada, tendo sido agredida pelo irmão e o cunhado do cacique com socos e “apertões”, além de ter sido ameaçada e injuriada pelos réus. Depois disso, ela foi solta e expulsa do acampamento”, relata o texto da sentença, proferida na quinta-feira (21).

O caso chamou a atenção do MP, que ofereceu a denúncia de tortura em 2012, pedindo a condenação dos envolvidos. À época, a Defesa dos acusados alegou que os índios não tiveram a intenção de lesar ou “causar maldades” à mulher e que o ato devia ser visto como uma prática cultural comum aos costumes da tribo, não podendo ser encarado como violência em função da medida de castigo adotada e executada compor o conjunto de regras e leis específicas do acampamento, sendo de conhecimento de todos os índios que ali viviam.

Respeito ao conjunto de regras internas

Respaldados por uma série de normas e deliberações próprias, compiladas no Estatuto dos Índios, as populações indígenas residentes em acampamentos e tribos presentes em todos os Estados brasileiros respeitam ordenamento próprios de sua cultura, distinguindo-se por região de inserção social e origem familiar. Para o magistrado passo-fundense que decidiu por inocentá-los da acusação de tortura, o aspecto da defesa cultural é o que prevaleceu na questão. “A solução para o caso é absolver os réus. As marcas em ambos os braços não podem ser traduzidas como intenso sofrimento físico. E nada veio a demonstrar que a vítima tenha sido submetida a intenso sofrimento mental, o que descaracteriza o crime de tortura descrito na denúncia”, argumentou Faccini Neto.

Ainda conforme o juiz da 2ª Vara Criminal do Fórum da Comarca de Passo Fundo, as medidas tomadas pelos caingangues fazem parte da cultura indígena, como, por exemplo, o ato de amarrar alguém a um tronco por horas a fio como forma de mostrar que foram cometidas infrações às normas internas da tribo. “Fato é que a mulher, grávida, foi amarrada a um tronco de árvore e ali ficou por algumas horas. Não sem motivos, pois a vítima teria 'desacatado' o cacique e as lideranças da tribo”, definiu o magistrado, reiterando que sob o fundamento da defesa cultural, isto é, do argumento de seguir as regras de sua própria cultura, a proteção jurídica que beneficiaria alguns, não alcançaria membros de outra comunidade, de maneira a afrontar-se o princípio da igualdade. “Na espécie, o instrumento que lesou e, de certa forma, restringiu a liberdade da vítima, era o meio ao alcance dos acusados, representantes legítimos daquele grupo indígena, de corrigir o comportamento do membro, para eles, infrator”.

Casos diferentes

A cultura e os costumes de um grupo, contudo, não podem ser todos descaracterizados de punição judicial, como observou o magistrado passo-fundense, apontando que o direcionamento da medida aplicada pelo cacique não infringia os direitos da vítima enquanto mulher, o que difere-se, por exemplo, conforme explicou Neto, da prática de certos grupos culturais que mutilam e violam o clitóris feminino, reduzindo a dignidade do indivíduo. “[...] o que não aconteceu no caso sob julgamento, em que a punição era prevista para a generalidade dos membros da tribo, inclusive em documento que era do conhecimento de todos. Nesta análise, não haveria outra forma de assegurar o caráter de prevenção negativa e de afirmação da vigência das normas internas da tribo, exceto do modo como a medida adotada representou. O castigo, neste caso, não partiu de uma demonstração pura e simples da autoridade do cacique, senão de um processo que se poderia reconhecer como democrático, com a finalidade primeira de reeducar índios problemáticos”, encerrou Orlando Faccini Neto.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Com todo o respeito ao magistrado, nesta linha de argumento, os indígenas que eram canibais podem matar um ser humano e se alimentar dele que ficarão impunes, já que faz parte da cultura deles. Que eu saiba, os indígenas civilizados devem seguir as leis brasileiras. Porém, como convivemos uma justiça onde a cabeça do juiz dita a lei, nada surpreende.

domingo, 24 de agosto de 2014

INDÍGENAS DESARMAM, AGRIDEM E PRENDEM PMS EM IRAI-RS. DOIS ÍNDIOS FORAM BALEADOS

ZERO HORA 24/08/2014 | 00h37

Indígenas são baleados em confronto com BM em Iraí. Confusão teria começado após um grupo de índios ser parado em blitz com licenciamento de veículo vencido

por Felipe Luis da Costa


Dois índios foram baleados durante um confronto com a Brigada Militar (BM), na tarde deste sábado, em Iraí, no norte do Estado. Dois policiais militares foram desarmados e chegaram a ser levados pelos índios da reserva caingangue, conforme a BM.

Os PMs foram liberados e os indígenas só devolveram os armamentos, coletes à prova de balas e uma viatura pertencente ao 37º Batalhão da cidade no começo da noite, depois da garantia de que seria aberto um inquérito para apurar os motivos dos disparos.

O agente da Polícia Civil Pedro Evaldo Wink, responsável pelo caso, diz que foram registradas duas ocorrências pelos policiais militares envolvidos. Segundo as ocorrências, o conflito entre indígenas e PMs começou quando um grupo de indígenas teve seu veículo parado em uma blitz de fiscalização na Avenida Flores da Cunha. Quando avisados que o veículo seria recolhido por estar com o licenciamento vencido, eles teriam reunido um grupo maior que cercou dois policiais, que pediram reforço ao sargento da BM Alfredo Zankoski.

— Cheguei no exato momento da "pauleira". Cerca de 20 índios estavam agredindo os policiais — disse o sargento, que afirmou ter ajudado os dois policiais a fugir do local.

Celso Jacinto, assessor do cacique caingangue Jadir Jacinto, diz que a confusão foi gerada por abuso de poder e abordagem agressiva dos policiais. Ele afirma que o indígena Walter dos Santos, que estava no carro com a filha de oito anos e a mulher, teria levado uma coronhada. Com a reação de Santos, os policiais teriam disparado cinco tiros. O outro indígena baleado seria um adolescente, sobrinho do cacique.

Conforme uma das ocorrências, outro indígena teria pegado a viatura dos policiais e tentado atropelar um deles. Em torno de 20 minutos depois, um grupo de 50 indígenas foi até o Batalhão e desarmou outros dois policiais, que foram levados para a reserva indígena. Após a liberação dos PMs, intermediada por uma agente da Fundação Nacional do Índio (Funai), os indígenas retiveram armamentos, coletes à prova de balas e a viatura até o começo da noite de sábado.

— Não é de hoje que sofremos essas agressões. O cacique não conseguiu conter a revolta do pessoal. Nós só fizemos tudo isso para chamar a atenção das autoridades — afirmou Jacinto.

Walter dos Santos, um dos baleados, foi levado até o hospital de Erechim, onde está internado. O adolescente, que teria levado um tiro no joelho, foi socorrido no hospital Nossa Senhora Auxiliadora, em Iraí, e liberado.

sábado, 2 de agosto de 2014

BRIGA GENERALIZADA EM RESERVA DO RS

RADIO PLANALTO 02/08/2014 | 08:55

Divergências internas resultam em briga generalizada na reserva indígena de Charrua


Índios entraram em conflito na noite de quinta para sexta na reserva de Charrua. Diversas pessoas ficaram feridas e três casas foram queimadas. Um cacique teria prendido pelo menos 10 pessoas, entre elas crianças e adolescentes, na quinta-feira. O estopim ocorreu quando uma adolescente presa, com um filho no braço, teria sido espancada e a criança caiu ao solo, iniciando o conflito. As divergências resultam da atitude de um cacique que não quer realizar eleições para a escolha de nova liderança da tribo que tem 380 índios.

Um grupo de índios acabou acampando em um campo de futebol e outro, temendo represálias, invadiu as terras de um ex-prefeito ao lado da reserva. A reserva de Charrua tem seis mil hectares, ou seja, mais de 15 hectares para cada índio, e mesmo assim por falta de entendimento, há integrantes fora da aldeia.

Ontem, lideranças aguardavam a presença da Funai para organizar uma reunião, mas ninguém compareceu. O que chama a atenção também é que a polícia, tanto militar como federal, não entraram na reserva apesar da briga e do incêndio das casas.

domingo, 29 de junho de 2014

TERRAS DEMARCADAS NA MIRA DE BRASILIA


Sinal de alerta: terras demarcadas na mira de Brasília. População ianomâmi no país foi reduzida a 20% desde o contato no fim do século XIX

POR ARNALDO BLOCH E SEBASTIÃO SALGADO
O GLOBO 29/06/2014 10:23


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Desde o contato no fim do século XIX a população ianomâmi no país foi reduzida a 20%, segundo indigenistas e antropólogos, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Frente de Proteção Ianomâmi, ligada à Funai. Hoje, são 23 mil, dos 40 mil no Brasil e na Venezuela — a maior população humana em alto grau de isolamento na mais extensa área indígena no planeta na floresta tropical.

O massacre também atingiu sua terra, riquíssima em reservas minerais, invadida, na década de 1980, pelo garimpo e por mineradoras, numa corrida do ouro estimulada pelo presidente da Funai à época, o hoje senador Romero Jucá (PMDB/RR). O número de garimpeiros chegou a ser cinco vezes o de ianomâmis. O reconhecimento, em 1992, dos 9,6 milhões de hectares, maior área demarcada do Brasil, de alta relevância para a proteção da biodiversidade amazônica, estancou a sangria.

Recentemente, com a alta de 100% no preço do metal, uma nova corrida se iniciou, mas o complexo foi desbaratado em operações da Funai com o Exército e a Polícia Militar, que retiraram 1.500 garimpeiros, explodiram 22 pistas e afundaram 84 balsas. Sucateada, com orçamento reduzido (R$ 566 milhões para as 692 TIs no Brasil, ou 13% do território nacional) e vítima de interferências de outros órgãos, a Funai resiste como pode.

Mas a grande ameaça vem de Brasília: com projetos de construção de grandes hidrelétricas e novas rodovias (como a Usina Jirau e o reasfaltamento da BR 319, de Porto Velho a Manaus), o governo pode vir a promover uma exploração recorde dos recursos naturais da Amazônia.

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Paralelamente, 54,8% da superfície ianomâmi está requisitada por mineradoras, de olho no artigo 176 da Constituição, que libera a exploração com legislação específica. O que trouxe de volta o projeto de Lei 1610, proposto por Jucá em 1996, parado desde então após aprovação no Senado. Um substitutivo de 2012 em fase adiantada de tramitação tem por relator o deputado Édio Lopes, do mesmo PMDB/RR de Jucá, historicamente ligado ao garimpo.

A filha de Jucá é sócia majoritária da Boa Vista Mineração, que tem 90.000 hectares requeridos.

Além disso, tramita uma Proposta de Emenda à Constituição (a PEC 215), determinando a revisão das demarcações em aberto e das homologadas, o que vai contra a Constituição.

Por fim, o projeto do Novo Código de Mineração, de maioria ruralista, procura compensar as limitações impostas à contestada PL 1610 para incluir no documento as terras indígenas, o que é inconstitucional, segundo já afirmou e reiterou o ministério das Minas e Energia.

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A DIÁSPORA DE 13 TRIBOS NÔMADES EXPULSAS DA MONTANHA


Durante o funéreo do caçador, morte de um cão expõe crise de liderança


POR ARNALDO BLOCH E SEBASTIÃO SALGADO
O GLOBO 29/06/2014 8:26 


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Cercada de floresta fechada, a casa tem quatro portas, que apontam para as trilhas, que levam ao igarapé — onde se toma o banho diário —; à área de caça além do horizonte; aos leitos para pesca (praticada por homens e mulheres com plantas venenosas que tiram dos peixes o oxigênio e os fazem se multiplicar às margens); e às roças onde cultivam suas raízes, frutas e ervas encantadas.


Pela porta que leva ao roçado chega-se à casa de Lourival, que vive em retiro. Maior autoridade espiritual da aldeia, patriarca dos ali chegados, ele não foi a Watoriki nenhuma vez nos dias em que durou a festa. Era visto frequentemente caminhando pelas trilhas com alguma raiz à mão, ou em visitas ao posto da Funai, em seu traje característico: completamente nu, só o cipozinho amarrado à glande, e uma cartola de pierrô decorada com tarjas verdes e amarelas.

O suposto motivo corria à boca miúda: semanas antes, o cão de caça de seu genro, o chefe Davi Kopenawa, teria sido morto a facadas por um dos filhos de Lourival. Os cães comuns não gozam de reputação entre os aldeões e parecem até ter consciência disso, pois apresentam-se diariamente, de forma voluntária, para levar saraivadas na cabeça e se alimentam de restos de pupunha e ossos. Um bom cão de caça, contudo, é altamente respeitado e sua morte equivale à de um “parente”. A morte do cão de Davi tem, além disso, um agravante: remonta ao elo que permitiu a fundação de Watoriki, 25 anos atrás, como refúgio da diáspora de 13 tribos que viviam nas montanhas, dispersas pela expansão da fronteira branca e por conflitos com povos vizinhos (como os moxihatetea, até hoje isolados).

A articulação política fora arquitetada por Lourival e tivera Davi como pivô. Nascido nos anos 1950 no Alto Rio Toototobi (Amazonas) — a pouco mais de 300 quilômetros do leito do Uriracoera, onde, na ficção de Mário de Andrade, nasceu Macunaíma — Davi deixara suas terras após a morte da mãe, de um surto de sarampo trazido por missionários. Aprendeu português para ler a bíblia e acabou virando intérprete da Funai. Militava no Posto Demini, num acampamento abandonado da Camargo Corrêa, encarregada das obras da BR-120, a Perimetral Norte, interrompida depois de causar destruição e mortes (ainda se veem traços de tubulações e do chão tomado pela mata). A essa altura, o posto fazia manobras de atração. Líder de sua tribo, Lourival se deixou seduzir com intenção de encontrar uma brecha e ter acesso a medicamentos e a ferramentas.

Nos sonhos estranhos que Davi tinha, Lourival anteviu vocação xamanística e fez dele seu aprendiz, oferecendo-lhe uma das filhas em casamento. Como a relação sogro-genro é o suporte do modelo de autoridade ianomâmi, o casamento político esvaziou a força do chefe do posto, e Davi foi ao topo da administração regional. Numa cultura na qual o poder é compartilhado pelos chefes de família, em que crianças de cinco anos andam com facões sem serem incomodadas, não há ação coercitiva firme, a não ser quando algo extremamente grave ocorre. Não à toa, o suposto matador se encontrava em fuga na floresta.

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Cada vez mais requisitado por compromissos fora da aldeia, Davi perdeu poder local nos últimos anos. No meio da festa, um avião veio apanhá-lo para ir a Manaus e, dali, partir numa viagem de várias escalas até São Francisco, Califórnia, onde iria discursar num fórum da ONU. As lideranças emergentes, da geração do meio, formada por gente que ora serve à Funai, ora a ONGS ou órgãos ligados à saúde indígena — ou se formam como professores na cidade — é uma horda dividida.

Anselmo, que vive a maior parte do ano em Boavista e veio para a festa, vai ao roçado, no importante momento de se colher a mandioca para a confecção do biju, munido de um aparelho de MP3 que toca remixes indígenas e interfere nos sons ritualizados da colheita.

— Estou confuso — confessa. — Mas tenho certeza que ainda farei muito por este povo.

Os mais jovens, garotada que vai à cidade de barco e volta com espelhinhos, gel e o cabelo penteado à Neymar, consideram a reles calabresa trazida pelos visitantes como ouro, metáfora involuntária dos minerais que os brancos arrancaram da terra e que são protegidos pelos espíritos, por não constituírem alimento.

Em meio à confusão, só no último dia da festa, Lourival, que durante todo o período não se deixara fotografar, enfim apareceu na maloca para chorar, com os seus, a morte do jovem caçador, irmão menor de seu afilhado, Raimundo, órfão de pai e mãe, mortos de doença de branco, no tempo em que as 13 tribos vieram da montanha...

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IANOMÂNIS: A GUERRA DE UM POVO ENTRE A VIDA E A MORTE

O GLOBO 29/06/2014 8:15 


O grito dos irredutíveis de Watoriki, microcosmo da maior área indígena do país, sob ameaça

POR ARNALDO BLOCH E SEBASTIÃO SALGADO



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Março, 2014. Amazonas, divisa com Roraima, entre as bacias do Rio Negro e do Rio Branco. Ao entrar na casa-aldeia de Watoriki, convidados para testemunhar a festa fúnebre de reahu —, durante expedição às terras ianomâni organizada por Sebastião Salgado e acompanhada pelo GLOBO — somos saudados em coro.

— Awei napë pë kopema!

“Os brancos chegaram”, traduz o lendário Davi Kopenawa, chefe da aldeia. Mas, no vernáculo, napë é um ser incorpóreo, oposto deyanomam (ser humano). Ou, nos relatos dos anciãos “espectros calvos esbranquiçados vindos das costas do céu e subindo os rios para comer carne humana defumada como carne de macaco”.

Cansados de quatro horas num monomotor vindo de Manaus, fazemos a volta da maloca, saudando seus habitantes. Mas a marcha é refreada por uma visão: 60 cadáveres de macacos atados por cipó pendem em fogo baixo. De cócoras, os corpos familiares fazem pensar que os brancos poderiam estar ali: na trilha das missões e das comissões de limites, das estradas abertas pelo exército nos anos 1970 e da corrida do ouro na década seguinte, 80% dos ianomâmis morreram.

O pensamento sombrio é aplacado por sorrisos e mãos abertas dos mais velhos, nus; pelos meninos com pequenas flechas e os curumins carregados por jovens mães; pelo mirar tímido das mulheres de tanga, seios e nádegas à mostra; e pela cautela dos homens da nova geração, de bermudas (algumas com as cores do Brasil) e peito aberto pintado de jenipapo e carvão.

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Os duzentos quilos de macacos são apenas parte do rito que viemos testemunhar e, neste primeiro dia de exéquias — em honra de um morto cujo nome não se pronuncia — o sol é refletido pela parede lisa e úmida da Serra Demini, visível de qualquer ponto dos 80 metros de diâmetro da maloca. Coberta de palha e folhas, com uma praça de terra batida ao ar livre, lembra um estádio. No centro, sob efeito da yakuana, pó marrom feito de ráspas de árvores que dá acesso aos espíritos (os ianomâmis são donos de vasta etnobotânica e um menu de plantas mágicas, médicas, letais, afrodisíacas), Genésio, membro da elite de pajés, solta gritos que imitam as vozes dos animais, faz poses que emulam fantasmas de árvores e gestos que repetem as coreografias dos espíritos protetores e dos maléficos. Com espanto, aponta para a serra Demini, onde reside o vento, ou para o céu, pedindo que o firmamento não caia sobre urihi-a, a “terra-floresta” criada a partir de matéria amorfa. Tragédia que passa facilmente do símbolo milenar à realidade, na interpretação de Davi, que observa a cena.

— A terra não morre. Só a gente. A terra só morre se o branco destruir. O chão fica frio, as árvores secam e as pedras esquentam. Os xapiripë, espíritos da serra, não podem mais dançar e vão embora. Os espíritos ruins reinam e todos morrem.

Registrada no livro “La chute du ciel” (“A queda do céu") escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert (maior estudioso dos ianomâmi) em parceria com Davi, a ideia de queda, que faz pensar nos irredutíveis gauleses de Asterix, afina-se com o discurso ambientalista, cada vez mais convergente com a cosmologia indígena.

Sob o céu que anoitece, os brancos se deitam cedo, em redes, entre famílias e “parentes” convidados para a festa, e curtem o breu que, numa aldeia sem luz elétrica, é permeado por lanterninhas e pequenas fogueiras que vão amenizar o frio da madrugada amazônica. Logo começam os discursos em yanomae, sobre os fatos do dia, a festa e o surto de gripe que ameaça duas anciãs e três crianças com pneumonia. Espirros, tosses agudas e gemidos de dor se alternarão, noite adentro, com roncos sobressaltados dos idosos.






Quando o dia nasce, o povo da aldeia já partiu à caça e à coleta de pupunha para fazer o “mingau”. Caçadores com arcos e flechas (e, raramente, espingarda) aventuram-se, usando as artes de imitar os animais, procurando seus alimentos típicos, seguindo seus rastros. Mais tarde chegarão com mutuns, e, nos dias seguintes, uma onça, um tatu, antas, porcões, cotias.

No posto da Funai, chefiado por Davi, enfermeiras e um médico cubano animados por um papagaio peripatético de asas cortadas que atende por Kiko (mas é fêmea), comunicam-se por rádio com a metrópole e outras comunidades. Parece que vai chegar remédio novo.

No fim da tarde, a pupunha macerada e misturada à água trazida pelas mulheres do igarapé onde todos se banham já fermenta em grandes galões. Nas franjas das telhas, secam os bijus de mandioca. Nesta madrugada, os brancos serão despertados por danças rituais, nas quais os homens e as mulheres marcham batendo os pés, em dezenas de voltas, enoando cantos polifônicos. Entre o fascínio e a insônia, os brancos experimentarão o banheiro reservado a eles. Contaminados pela alimentação da cidade e a corrupção da alma, os dejetos dos brancos são considerados impuros para a mata. Só à medida que a confiança mútua se estabelecer, os napë terão licença de usufruir das abluções in natura, segundo usos e costumes locais.

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No dia seguinte o mingau de pupunha ligeiramente fermentado repousa numa grande arca. Em cuias de coco, os participantes da festa recolhem o vinho alaranjado e oferecem uns aos outros em grande quantidade, para regurgitar. Então, recomeçam a beber. O ciclo se repete até que a arca se esvazie. Cercado de grande hilaridade, é um tipo de guerra satírica, no qual uns “matam” os outros mas a morte nunca chega, já que vão dormir exaustos, e dançar na noite seguinte, e, ao amanhecer, correr, de novo, para a arca.

A negação da morte é levada a sério, e só com muito esforço é possível descobrir o que aconteceu — já que, pelas regras, falar do morto é proibido. Seus objetos foram queimados, seu nome é proscrito, os fatos da morte não interessam. Mas, com o passar dos dias, a história por trás do luto vai se desvelando, em relatos curtos e pequenas catarses. Irmão caçula de Raimundo, chefe de família, um dos líderes locais, o jovem caçador morreu depois de matar um mutum azul. Ao subir a árvore para recuperar sua flecha, caiu de costas. Mortes assim, na mitologia ianomâmi, só ocorrem quando se mata o seu duplo animal. Daí a importância e a grandeza da festa.

Envolto numa espécie de rede feita de folhas de bananeira, o corpo foi suspenso entre duas árvores próximas ao igarapé, e assim ficou até poder ser descarnado, e seus ossos foram queimados, e suas cinzas guardadas nas urnas que ora aguardam o desenrolar da festa, na maloca sob a serra, no mesmo local onde os 60 macacos são assados, dia e noite, em fumaça lenta e persistente.

Só no último dia o povo terá a liberdade do pranto. Antes, pajés e visitantes soprarãoyakuana nas narinas. Alguns vão se unir em duplas e realizar o waymou, de diálogo arcaico, de metáforas entrelaçadas, em forma de desafio. No ápice da pajelança que envolve até crianças, estão todos atados ao que vem da montanha e do céu.

Então, os brancos são expulsos da maloca. As cinzas são enterradas ou guardadas por parentes.

E o pranto, ouvido do lado de fora, é tão intenso que parece que o céu caiu sobre a terra.

LEIA AMANHÃ: A expedição ao Pico da Neblina, montanha sagrada ianomâmi

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sábado, 14 de junho de 2014

O PARÁ FERVE

REVISTA VEJA, sábado, 14 de junho de 2014

Lauro Jardim Radar on-line

com Gabriel Mascarenhas e Thiago Prado



LAURO JARDIM

Os Xikrin ameaçam incendiar tudo

Um conflito entre índios e a Vale ferve a cidade de Ourilândia, no Pará, onde a maior mineradora do mundo tem uma unidade de extração de níquel desde 2005.

Desde a manhã de quinta-feira, cerca de 350 índios Xikrin do Cateté mantêm, em cárcere privado cinquenta empregados da Vale dentro da própria unidade.

Os índios ameaçam pôr fogo no local agora às 15 horas. O forno da unidade está sendo mantido ligado em potência mínima diante do risco de incêndio.

E o que os índios reivindicam? Dinheiro. A Vale contribui com 9 milhões de reais para as três aldeias dos Xikrin na região, mas eles exigem quatro vezes mais.

Também desde quinta-feira, o governo estadual e a Funai foram avisados do que estava acontecendo em Ourilândia. Talvez mais preocupados com a Copa, ninguém se mexeu.Por Lauro Jardim